NAPOLI
O comboio chegou estava já a escurecer. Não nos apercebemos da entrada na cidade, apenas a imensidão de prédios e o oceano de confusão que as janelas enquadravam nos sugeriram que estávamos a atravessar as periferias naquele momento. Passados uns minutos chegámos à stazione centrale. A vista do mar tirreno teria que ficar para o dia seguinte...
A estação tinha ligação com a rede de metro e, ainda que esta fosse precária, pareceu um luxo para quem vinha de Veneza. Saídos na Piazza Cavour, enfim respirávamos o ar de Nápoles. O nome da praça não surpreendia, pois afinal todas as cidades italianas têm uma “Cavour”; no entanto, as tonalidades ocres da envolvente e as palmeiras davam-lhe um certo ar exótico. Seguíamos pela rua, evitando o interior das arcadas ocupadas pelos sem-abrigo, em direcção à casa dos nossos colegas. “É já ali à frente.” Por momentos pensei que brincavam connosco, pois “ali à frente” só havia palácios renascentistas. Num deles, como soube no dia seguinte, funcionava o Museo Nazionale. No outro, como soube passado dois minutos, funcionava uma verdadeira unidade habitacional na qual se inseria a residência dos estudantes portugueses.
Passada a aventura de atravessar a rua, subimos umas íngremes rampas que nos conduziram a uma maciça porta em madeira que preenchia na totalidade um monumental arco de volta inteira. No topo dos seus cinco metros um brasão coroava a moldura de pedra. “Esta é a vossa entrada?”, insistia em não acreditar. Imperceptível, uma abertura à escala humana (suficiente para passar uma pessoa de estatura média) abria-se na imensa porta e dava acesso ao interior do palácio. Entrámos, já de noite, no pátio central. A escuridão impedia-nos de compreender o espaço e apenas na escadaria de granito que dava acesso ao primeiro piso uns tímidos candeeiros permitiam-me não tropeçar nos degraus e vislumbrar um pouco o edifício. Era monumental, mas parecia que já não habitava ali ninguém há vários anos. Entrámos numa primeira divisão onde estavam a fazer obras, mas ainda não era ali a casa. Atravessámos uma estreita galeria construída em ferro, madeira e vidro que parecia suspensa sobre o pátio e por fim ouvimos “Chegamos!” (se bem que não tínhamos aberto nenhuma porta de entrada e só com muita boa vontade podíamos considerar aquele espaço um hall).

Dentro da casa, a sensação de monumentalidade do palácio desvanecia-se quase por completo. Uma amálgama de materiais improvisava novas divisões que se sobrepunham aos antigos espaços: azulejo, cortiça, contraplacado, painel perfurado de madeira, davam forma aos indispensáveis quartos de banho e cozinha e possibilitavam subdividir um quarto em três. As origens daquele patchwork arquitectónico eram apreensíveis sobretudo nos quartos, que conservavam o pé direito de quatro ou cinco metros e as grandes janelas verticais que tínhamos avistado do exterior. Todo o restante espaço parecia domesticado pelos homens, construído à sua escala e medida. Aquele percurso que tínhamos acabado de fazer era de facto surpreendente, com as suas mudanças de escala a oscilarem entre o monumental e o existenz minimun : a porta da entrada do palácio, que concentrava ambas, parecia conter subtilmente o seu ADN. Na estreita varanda do quarto observava o vórtice que se desenrolava nas ruas de Nápoles; também agora me parecia a varanda demasiado pequena para uma cidade tão grande...
Só na manhã seguinte pudemos observar como os habitantes se tinham apropriado daquele edifício. Sob o sol da manhã, o cortille revelava a presença humana em todos os cantos: panos e roupas secavam nas varandas ou nos estendais, os automóveis, as motorizadas e as bicicletas invadiam o granito do pavimento, pequenos nichos inseridos na parede de azulejo exibiam velas acesas e vozes ecoavam... Grande parte do encanto daquele espaço vinha, sem dúvida, das galerias que se multiplicavam pelos quatro pisos: às cinzentas paredes do palácio e ao peso da pedra opunham a sua panóplia de cores e a leveza da madeira e do ferro. Como que a pairar sobre o vazio, guiavam-nos num périplo até aos múltiplos corredores dos pisos superiores. Por fim, reparei que a monumental porta estava aberta. Durante os dias da semana, o insólito acontecia e o interior reclamava o exterior, o pátio convertia-se em praça e o comércio mais inesperado abria portas: a sapataria “Leone” fazia-se anunciar com um cartaz à entrada, em letras vermelho terra a condizer com a cor que em tempos animou a austera fachada do palácio renascentista.
Naquele momento, o continuum de buzinas que constitui a permanente banda sonora de uma das mais inenarráveis cidades da europa tomou-nos por completo a atenção...



