30.10.04

NAPOLI

O comboio chegou estava já a escurecer. Não nos apercebemos da entrada na cidade, apenas a imensidão de prédios e o oceano de confusão que as janelas enquadravam nos sugeriram que estávamos a atravessar as periferias naquele momento. Passados uns minutos chegámos à stazione centrale. A vista do mar tirreno teria que ficar para o dia seguinte...
A estação tinha ligação com a rede de metro e, ainda que esta fosse precária, pareceu um luxo para quem vinha de Veneza. Saídos na Piazza Cavour, enfim respirávamos o ar de Nápoles. O nome da praça não surpreendia, pois afinal todas as cidades italianas têm uma “Cavour”; no entanto, as tonalidades ocres da envolvente e as palmeiras davam-lhe um certo ar exótico. Seguíamos pela rua, evitando o interior das arcadas ocupadas pelos sem-abrigo, em direcção à casa dos nossos colegas. “É já ali à frente.” Por momentos pensei que brincavam connosco, pois “ali à frente” só havia palácios renascentistas. Num deles, como soube no dia seguinte, funcionava o Museo Nazionale. No outro, como soube passado dois minutos, funcionava uma verdadeira unidade habitacional na qual se inseria a residência dos estudantes portugueses.
Passada a aventura de atravessar a rua, subimos umas íngremes rampas que nos conduziram a uma maciça porta em madeira que preenchia na totalidade um monumental arco de volta inteira. No topo dos seus cinco metros um brasão coroava a moldura de pedra. “Esta é a vossa entrada?”, insistia em não acreditar. Imperceptível, uma abertura à escala humana (suficiente para passar uma pessoa de estatura média) abria-se na imensa porta e dava acesso ao interior do palácio. Entrámos, já de noite, no pátio central. A escuridão impedia-nos de compreender o espaço e apenas na escadaria de granito que dava acesso ao primeiro piso uns tímidos candeeiros permitiam-me não tropeçar nos degraus e vislumbrar um pouco o edifício. Era monumental, mas parecia que já não habitava ali ninguém há vários anos. Entrámos numa primeira divisão onde estavam a fazer obras, mas ainda não era ali a casa. Atravessámos uma estreita galeria construída em ferro, madeira e vidro que parecia suspensa sobre o pátio e por fim ouvimos “Chegamos!” (se bem que não tínhamos aberto nenhuma porta de entrada e só com muita boa vontade podíamos considerar aquele espaço um hall).
Dentro da casa, a sensação de monumentalidade do palácio desvanecia-se quase por completo. Uma amálgama de materiais improvisava novas divisões que se sobrepunham aos antigos espaços: azulejo, cortiça, contraplacado, painel perfurado de madeira, davam forma aos indispensáveis quartos de banho e cozinha e possibilitavam subdividir um quarto em três. As origens daquele patchwork arquitectónico eram apreensíveis sobretudo nos quartos, que conservavam o pé direito de quatro ou cinco metros e as grandes janelas verticais que tínhamos avistado do exterior. Todo o restante espaço parecia domesticado pelos homens, construído à sua escala e medida. Aquele percurso que tínhamos acabado de fazer era de facto surpreendente, com as suas mudanças de escala a oscilarem entre o monumental e o existenz minimun : a porta da entrada do palácio, que concentrava ambas, parecia conter subtilmente o seu ADN. Na estreita varanda do quarto observava o vórtice que se desenrolava nas ruas de Nápoles; também agora me parecia a varanda demasiado pequena para uma cidade tão grande...
Só na manhã seguinte pudemos observar como os habitantes se tinham apropriado daquele edifício. Sob o sol da manhã, o cortille revelava a presença humana em todos os cantos: panos e roupas secavam nas varandas ou nos estendais, os automóveis, as motorizadas e as bicicletas invadiam o granito do pavimento, pequenos nichos inseridos na parede de azulejo exibiam velas acesas e vozes ecoavam... Grande parte do encanto daquele espaço vinha, sem dúvida, das galerias que se multiplicavam pelos quatro pisos: às cinzentas paredes do palácio e ao peso da pedra opunham a sua panóplia de cores e a leveza da madeira e do ferro. Como que a pairar sobre o vazio, guiavam-nos num périplo até aos múltiplos corredores dos pisos superiores. Por fim, reparei que a monumental porta estava aberta. Durante os dias da semana, o insólito acontecia e o interior reclamava o exterior, o pátio convertia-se em praça e o comércio mais inesperado abria portas: a sapataria “Leone” fazia-se anunciar com um cartaz à entrada, em letras vermelho terra a condizer com a cor que em tempos animou a austera fachada do palácio renascentista.
Naquele momento, o continuum de buzinas que constitui a permanente banda sonora de uma das mais inenarráveis cidades da europa tomou-nos por completo a atenção...

24.10.04

QUIOSQUE

Há pouco tempo atrás Eduardo Prado Coelho, numa das suas crónicas diárias no Público, reflectia sobre os quiosques que desapareciam ou "emudeciam" nas cidades. Comparava-os aos coretos ainda existentes, fisicamente presentes mas vazios de sentido. E fazia questão de evidenciar a sua importância nas cidades contemporâneas, onde nos movemos demasiado depressa: "(...) pequenos círculos no caos da cidade onde se pára para beber uma ginginha e ficar umas dezenas de minutos a dizer mal do Governo, a falar das grandes penalidades que ficaram por marcar, a deitar contas à vida. Lugares de sombra e de convívio entre desconhecidos, onde a vida se detém um pouco para permitir que os homens se tornem menos apressados e mais humanos." Mais à frente sintetizava o seu raciocínio, adjectivando estas pequenas estruturas de "desacelaradores urbanos".
Reflectindo um pouco, porque é que em Paris, Roma ou Barcelona (apenas os exemplos que me vêm mais depressa à memória) ainda podemos encostar nestas "box's" e alhearmo-nos por breves instantes do vórtice urbano que nos cerca, despistarmos a vista no mar de papel que se acumula - na maior parte das vezes - num espaço exíguo, soltarmos uma risada com o castiço vendedor que parece sempre demasiado gordo no seu microcosmos?...Ou, colocando a questão de outra forma, porque não o podemos fazer no Porto? Porque desapareceram praticamente da cidade os quiosques? Porque não posso continuar ansioso, como quando era criança e corria para ver se já tinham chegado "quadradinhos" novos?
Será que os passeios generosamente alargados das recentes intervenções urbanas não aceitam estas pequenas estruturas a pontuá-los ou simplesmente os portuenses desinteressaram-se de serem "menos apressados e mais humanos"?

23.10.04

AS ÁRVORES

A propósito de um diálogo entre Corto Maltese e Boca Dourada, no qual o marinheiro, respondendo a uma provocação da sacerdotisa, afirma que "não é dos que ganham raízes", lembrei-me de um perturbante conto de Franz Kafka:
"Porque somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente estão apenas pousados na neve e com um simples empurrão conseguir-se-ia afastá-los. Não, não é possível porque estão firmemente ligados ao solo. Mas reparem que até isto é apenas aparente."
(Kafka, Franz, Os Contos Iº Volume, Lisboa, Editora Assírio & Alvim, 2004)

22.10.04

A ALDEIA

A comunidade rural que habita algures para além dos bosques da Pennsylvania no filme de M. Night Shyamalan, The Village (erradamente traduzida para português como “A Vila”), remete-nos directamente para os modelos utópicos dos considerados “pré-urbanistas” do século XIX, nomeadamente Robert Owen. A comunidade auto-suficiente, onde o trabalho humano é a unidade de medida de todas as trocas (cada um é simultaneamente produtor e consumidor) e afastada das grandes cidades retoma uma importante e controversa ideia que marcou o século XIX : a solução para a cidade industrial só podia ser encontrada fora desta, numa comunidade reduzida, organizada e auto-suficiente.

No seu modelo de convivência ideal, Owen fixa logo no primeiro ponto aquilo que considerava ser de capital importância: o número de habitantes. Este deveria ser fixo e situar-se entre 300 e 2000. Para isso, a comunidade teria que localizar-se estrategicamente, de forma a dificultar chegadas ou partidas de população. Owen estaria certamente familiarizado com a Utopia de Thomas More, não por acaso pensada para uma ilha, praticamente inacessível a partir de outros povoados e intimidadora para quem se atrevesse a entrar ou, ainda mais importante, a sair dos seus territórios. As aldeias que Owen fundou nos Estados Unidos tomaram um rumo bastante diferente do inicialmente previsto. De certa forma, assumiram-se um fracasso numa das suas principais ideias: a auto-suficiência. Estas experiências, bem como todas as que foram influenciadas pelo seu pensamento (cidades-jardim), provaram que o seu sucesso dependia da proximidade de uma grande cidade, da possibilidade de trabalhar fora e de um crescimento que não era de maneira nenhuma estável.

Na aldeia de Shyamalan, voltada sobre si própria, a cidade é recusada pela sua decadência moral e espiritual, é vista como o inimigo. Na verdade, Those We Do Not Speak Of são os habitantes “das cidades”, assim descritas de forma vaga e genérica; As fronteiras (“the borders”) assumem aqui a mesma importância que levaram More a conceber a Utopia como uma ilha; E a única hipótese que os “anciãos” encontraram para manter os seus descendentes presos àquele lugar foi a manipulação através do medo: a construção de um mito ligado à floresta envolvente tem ali o mesmo papel que a polícia secreta num qualquer regime opressor. Assim, a única forma de alguém chegar até “às cidades” e regressar à aldeia era esse alguém ser....cego.

17.10.04

CADERNO DE VIAGENS 001


veneza, junho de 2002

16.10.04

INAUGURAÇÃO

É oficial. Soaram as cornetas. Tiraram-se os melhores vestidos do armário, afastando as traças. Abriram-se as garrafas de champagne, sem agitar demasiado. Prepararam-se os discursos, ainda que sem teleponto.
Como qualquer boa inauguração, ainda se acabam os últimos pormenores: um retoque ali, uma modificação acolá...Dada a confusão aqui na casa, o melhor é fazermos nossas as palavras de Walter Benjamin e esperar por dias mais calmos:
"Durante séculos, a situação da escrita foi tal que a um reduzido número de escritores correspondia um número de vários milhares de leitores. No início do século passado verificou-se uma mudança nesta situação. Com a crescente expansão da imprensa, que proporcionava aos leitores cada vez mais orgãos locais políticos, religiosos, científicos e profissionais, uma parte cada vez maior dos leitores começou por, de início ocasionalmente, passar a escrever. Tudo isto começou com a imprensa diária a abrir aos leitores o seu "correio", e actualmente a situação é tal que quase não deve haver um europeu, inserido no mundo do trabalho, que não tenha tido possibilidade de publicar uma experiência laboral, uma reclamação, uma reportagem, ou algo afim. Assim, a diferença fundamental entre autor e público está prestes a perder o seu carácter fundamental. Esta diferença torna-se funcional, podendo variar de caso para caso. O leitor está sempre pronto a tornar-se um escritor."
(Benjamin, Walter, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio de Água Editores, 1992)