9.10.05

73/73, MAIS UMA VEZ

Em semana de eleições autárquicas e comemorações do dia mundial da arquitectura, a blogosfera fervilhou em torno da questão do famigerado decreto de lei 73/73. A publicação de um texto do arquitecto Bernardo Rodrigues, sem qualquer ligação com a petição da Ordem dos Arquitectos, ajudou ao reacender da discussão e à divisão entre os "que são contra" e os "que são a favor". Eu tenho algumas dificuldades em ver esta questão a preto ou branco, e por isso muitas vezes a minha posição tende a ser vista como vaga ou ambígua; mas depois de tudo o que tenho lido estes dias, penso o seguinte:

1. A revogação do decreto, que possibilitaria que projectos de arquitectura passassem a ser única e exclusivamente assinados por arquitectos, não é uma garantia da melhoria da nossa paisagem construída. Isto parece-me evidente: basta dar uma vista de olhos por revistas que publicam projectos de arquitectos (Arquitectura e Vida, Casa e Construção, suplementos de imobiliária, etc etc) para ficarmos com os cabelos em pé. A licenciatura, por seu lado, também não é garantia de coisa absolutamente nenhuma: todos os que saem das universidades estão conscientes do muito que lhes falta aprender, caso contrário os 5 ou 6 (ou mais) anos que lá andaram terão sido em vão.

2. O facto do projecto entrar na Câmara com uma assinatura de um arquitecto não significa que tenha sido desenhado por um. Ou seja, passava a acontecer exactamente o mesmo que se verifica hoje em dia, mas em vez da dupla desenhador-engenheiro teríamos então desenhador-arquitecto. (E não me parece que a máxima "More Ethics , Less Esthetics" esteja muito presente nos nossos profissionais...)

3. No entanto, não vejo onde é que esta revogação possa ser uma "imposição do Estado" (com um teor fascizante...): qualquer cidadão é livre de encomendar a um arquitecto caixilhos em alumínio, paredes em azulejo ou balaustradas em pedra. A obrigação de um profissional é harmonizar tudo da melhor forma possível, organizar o espaço de uma forma lógica, integrar o mais possível a construção no ambiente circundante. Se pensar que é uma sumidade e está num patamar superior (só trabalha com betão aparente, caixilharia em ferro e "cozinhas Starck") está sempre no seu direito de mandar o cliente dar uma volta ao bilhar grande. Outros estarão dispostos a aceitar esta encomenda.

4. Também não entendo como esta revogação possa monopolizar a livre concorrência no mercado: 13 000 indivíduos a exercerem a mesma profissão num país de 10 000 000 de habitantes é monopólio?
Monopólio é a atribuição de determinadas encomendas sempre aos mesmos arquitectos sem a elaboração de concursos públicos.

5. Uma vez que se abriram cursos de arquitectura ao desbarato que "todos os anos lançam literalmente centenas de jovens para o desemprego", que o país está mergulhado numa crise económica sem fim à vista (com a consequente diminuição de encomendas, públicas e privadas) e que os recém-licenciados são mais mal pagos do que uma empregada doméstica, não posso aceitar que o pouco trabalho que ainda nos resta seja canalizado para outros profissionais que ridicularizam a complexidade da nossa profissão e que a nivelam por baixo, aceitando um projecto de uma moradia por 1000 euros!

6. Sem a revogação do decreto 73/73, a existência de um orgão como a Ordem dos Arquitectos é absurda e hipócrita.

7. Recordo-me de uma crónica de Pacheco Pereira na qual, comparando o Portugal de hoje com o Portugal pré-25 de Abril, o historiador escrevia o seguinte: "Há de facto algumas melhorias reais, há mais escolas, mais bibliotecas, mais equipamentos culturais, nalguns casos gigantes e subutilizados, mais hospitais, a nivel local e regional, melhor comércio de massas, mais acesso a determinados bens e mais dinheiro para os adquirir. É verdade. Mas é uma gota de água no caos, na fealdade que cresce exponencialmente."
Que a revogação do 73/73 possa ser mais uma gota de água.

(Para além das ligações apontadas nos Arquitectos Invisíveis, juntar ainda à discussão Santa Bárbara e Complexidade e Contradição).

4 Comments:

Anonymous guevara said...

confesso: cada dia sei menos o que dizer... sequer o que pensar!

10/10/05 13:21  
Blogger alexandre said...

brevemente:
3. impões-te uma diminuição do leque de escolha. Claro que um arquitecto pode fazer uma balaustrada em pedra (eu serei o primeiro!) mas também um desenhador e ninguém morre por isso, mas estás a obrigar as pessoas a ir ao arquitecto.
4.Tens 13000 arquitectos, mas muitos mais desenhadores e engenheiros. E a concorrência é bonita quando é entre todos, e não só restrita a uma "corporação"
5. Aí é que está a livre concorrência que não se quer aceitar...
6. "a existência de um orgão como a Ordem dos Arquitectos é absurda e hipócrita" com ou sem revogação. Só serve para chatear. Devia ser facultativo o ingresso, e aí tornava-se uma questão de prestígio dos seus membros.
7. os pontos 1 e 2 esclarecem que a revogação nunca será uma gota de água no caos - apenas criará um caos mais "culto", mais elitista (ou nem isso). Logo, mais vale estar quieto - é essa a minha posição.

11/10/05 01:51  
Anonymous Anónimo said...

...Uma vez que se abriram cursos de arquitectura ao desbarato que "todos os anos lançam literalmente centenas de jovens para o desemprego...


Isso de os cursos ao desbarato não é bem assim. Os tres polos da Lusiada e os seus cursos de Arquitectura, é que abrem o dobro de vagas que o resto de escolas de pais juntas.

12/10/05 18:05  
Anonymous tld said...

Alexandre:
Tens sempre argumentos para tudo. Mas ser arquitecto não é o mesmo que ser empresário, onde qualquer um pode partir do zero para montar uma multinacional.Neste caso o importante é a inteligência e a ambição, mais do que ter um curso nas mãos.
Em áreas especializadas, cada macaco no seu galho. Eu não pretendo fazer concorrência a ninguém montando uma clínica de neurocirurgia...

Anónimo:
A frase estava dentro de aspas pois era uma frase do arquitecto Bernardo Rodrigues. Mas dou-lhe muita razão: eu que passei pela Lusíada ficava abismado com as turmas do primeiro ano a chegarem até à letra "m"...

12/10/05 22:07  

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