30.12.05

2005, 4 ANOS DEPOIS


É impossível ficar indiferente à sua forma, ao seu tamanho, à sua provocação. A Casa da Música (1) aterra na Rotunda da Boavista com quatro anos de atraso, mas ainda assim abana profundamente os portuenses e semeia o caos entre os estudiosos de arquitectura. Como qualquer obra que não é neutra, desperta ódios e paixões. Escrevem-se inúmeros artigos a defender cegamente a peça e outros tantos a atacá-la impiedosamente. Passados oito meses, tento alinhavar somente meia dúzia de observações:

Ponto número um: dos três projectos apresentados a concurso, o de Koolhaas era o melhor. Ponto número dois: o discurso "a obra não se integra na envolvente" não faz sentido - isso nunca foi uma pretensão do arquitecto e nunca poderá ser uma pretensão desta forma de pensar a arquitectura e a cidade. Ponto número três: o conceito de sobrepôr uma série de caixas (onde se albergam os programas principais) e unir os seus vértices para obter um poliedro irregular origina uma infinidade de espaços residuais e uma anarquia espacial. Ponto número quatro: a Casa quer-se aberta a todos os públicos, mas para estes disfrutarem dos sons que por lá se ensaiam Koolhaas obriga-os a passar por uma penitência só comparável ao Bom Jesus de Braga. Ponto número cinco: talvez por isso mesmo o holandês se tenha desleixado tanto na escolha das cadeiras do grande auditório - o público chega lá tão cansado que até um banco de cozinha seria suficiente para descansar o estafado corpo. Ponto número seis: fica a sensação que (quase) tudo se resume a uma alucinante promenade; para refutar este ponto, pode-se afirmar que a villa Savoye também é (sobretudo) uma promenade. Ponto número sete: "Is there a connection between the predominance of mirrors in the Generic City - is it to celebrate nothingness through its multiplication or a desperate effort to capture essences on their way to evaporation?"(2) Fico com a ideia que o arquitecto Ginestal Machado sabia a resposta, mas não o deixaram falar...

(1) Foto roubada aqui.
(2) Koolhaas, Rem, The Generic City.

1 Comments:

Blogger AM said...

gostei muito desta posta

30/1/06 18:10  

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