29.1.05

CAMPO


Sigmar Polke, Lager, 1982.

27.1.05

27.01.1945

"Porque o mundo é monstruoso. Porque o mundo não pode levar o homem senão ao desespero, e um desespero tão total, tão absoluto, que não há nada que possa abrir a porta desta prisão que é a ausência de toda e qualquer esperança(...). A ideia de que uma criança sofre, portanto, é mostruosa para ele. É ainda mais monstruosa do que a monstruosidade do próprio mundo. Porque rouba ao mundo o seu único consolo e, pelo facto de um mundo poder ser imaginado sem consolação possível, ela é monstruosa."

"«É verdadeiramente espantoso», escreveu ela, apenas três semanas antes da prisão,«que eu não tenha abandonado todos os meus ideais, porque, de facto, eles parecem absurdos, irrealizáveis(...) Vejo o mundo a transformar-se gradualmente numa selva, ouço, cada vez mais perto, o trovão que vai destruir-nos também a nós, sinto em mim os sofrimentos de milhões de pessoas e, no entanto, quando contemplo o céu, penso que tudo isto acabará em bem, que mesmo esta crueldade terá um fim....»".

Os dois pensamentos estão no Livro da Memória, mas no segundo Paul Auster cita o Diário de Anne Frank. Para reflectir , 60 anos depois....

26.1.05

PARA UMA DISCOGRAFIA : ALMAS ATORMENTADAS


Perry Blake, Perry Blake, 1998, Naive.

25.1.05

8 E 1/2


A propósito do mais autobiográfico dos seus filmes, em reposição no cinema, vale a pena "ouvir" Fellini em discurso directo:

"...Ecco, vorrei proprio suggerire, non tanto ai critici ma agli spettatori, un atteggiamento ricettivo, di completo abbandono: ascoltate, che io vi racconto la mia storia con una sincerità quasi spudorata. Non cercate di interpretare e di capire, state solamente a sentire quello che vi dico, perché sono le passioni, le speranze, le paure, le vigliaccherie, le angosce, le sporcizie di un uomo che si ritiene come voi, insomma."

22.1.05

PARA UMA DISCOGRAFIA : ALMAS ATORMENTADAS


Nick Drake, Pink Moon, 1972, Island Records.

21.1.05

AVENIDA DA PONTE


O desenho vem na última edição da revista da Câmara Municipal do Porto, de Janeiro de 2005. O Título é “Requalificação da Avenida dos Aliados”, mas a planta e o corte permitem concluir que aquela proposta é bem mais estruturante do que uma mera uniformização de materiais ou reperfilamentos de faixas de rodagem. Ali está exposta uma maneira de pensar cidade, entendida como uma sucessão de diferentes espaços e tempos que se procuram tornar harmoniosos, partes da mesma sinfonia.
Trindade – Aliados – Avenida da Ponte – Avenida da República. Se o primeiro e o último avançam, ainda que demasiado lentamente, à boleia do metro, e se os Aliados parecem não escapar a um lifting há muito anunciado (espero que se tenha aprendido com os erros da Porto 2001) pergunto-me em que gaveta andará o projecto de Álvaro Siza para a Avenida da Ponte (também de 2001), que foi dado como certo pela Câmara do Porto mas “chumbado” mais tarde em Assembleia Municipal, talvez pelos 3,5 milhões de contos em que foi, na altura, orçamentado...

16.1.05

JANUS,

filho de Apollo e de uma ninfa, era o Deus romano dos começos. A primeira hora do dia, o primeiro dia do mês, o primeiro mês do ano eram para ele sagrados. Janeiro é-lhe consagrado: januarius mensis, ou seja, o mês de Janus (o primeiro no calendário de Numa Pompílio).
Mas Janus era também o guardião das portas, presidia a todos os espaços de entrada. Janela, do latim januella (diminutivo de janua) etimologicamente significa entrada; acesso; caminho. Crê-se ainda que tenha inventado as fechaduras. O Deus que existia entre dois espaços, dois tempos, era vulgarmente representado com duas cabeças, uma nas costas da outra, pela sua faculdade de conhecimento do passado e do futuro.

É no início de cada ano que, tal como Janus, procuramos olhar em duas direcções simultaneamente, pensando no que passou e fazendo planos para o que há de vir...

9.1.05

SMILE

Delicioso. Uma canção do novo (?) álbum de Brian Wilson com um minuto e cinquenta e seis segundos dividida em três partes: I'm In Great Shape ("Fresh clean air around my head / Morning tumble out of bed. Eggs and grits / and lickecty slipt. Look at me jump! / I'm in the great shape of the agriculture!") , I Wanna Be Around...

...e, por fim, Workshop, ao som dos martelos, serras e plainas...

6.1.05

A LER:


A história dos Reis Magos contada por Marco Polo no seu "livro das maravilhas", escrito entre 1298 e 1299 quando o veneziano se encontrava preso em Génova. O manuscrito original, escrito por Rustichello da Pisa (escrevendo aquilo que Polo lhe ditava no cárcere) perdeu-se, mas as cópias multiplicaram-se e hoje em dia não há livraria italiana que não possua um exemplar. A edição da Oscar Mondadori é interessante, em formato "quase-de-bolso": Marco Polo - Il Milione, scritto in italiano da Maria Bellonci, Roma, 1982.

No capítulo XXXI pode ler-se: "(...) In Persia è la città di Sava dalla quale partirono i Re Magi quando andarono ad adorare Gesù Cristo. In quella città esistono ancora le loro tre tombe e sono grandi e belle. (...)" Interessante será também perceber que a tradição da viagem dos três reis persas foi recuperada pela Igreja Católica na celebração do aniversário de Cristo, "oficializado" a partir do século IV....

3.1.05

POÉTICA(S) DO BANAL

Foi-me enviado este pensamento do Jean-Paul Sartre com o qual me identifico bastante:
"Eis o que pensei: para o conhecimento mais banal se tornar uma aventura é preciso, e é bastante, que nos ponhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias, vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo o que lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la."

Obrigada, C.

1.1.05

CADERNO DE VIAGENS: 01.01.01


s. pedro de las rocas, janeiro de 2001

Acordámos ainda a acusar a surpreendente noite anterior em Orense. Já passava há muito da hora de almoço, quer portuguesa quer espanhola, mas neste dia particular tudo se desenrola com muita calma...A única preocupação eram os dias demasiado curtos, ajudados por um clima cinzento que possibilitava que, passado pouco das cinco horas, fosse noite escura. Por isso, metemo-nos à estrada, sinuosa por sinal, à procura desse recôndito lugar chamado S. Pedro de las Rocas, a poucos quilómetros de Orense.

No final de uma subida parámos os carros num pequeno terreiro e deparámo-nos com um mosteiro(?). Não se encontrava ali absolutamente ninguém. A vastidão da paisagem envolvente ocultava qualquer sinal de civilização num vasto raio de quilómetros. Noutros tempos, certamente ali tinha tido lugar a meditação e o isolamento espiritual. Ainda hoje parecia ser esse o seu propósito. E no entanto, algo de inquietante estava ali intrínseco...na elegante espadana erguida misteriosamente em cima de uma rocha coberta de musgo, nos túmulos esculpidos nas rochas exteriores que se (con)fundiam com as paredes, nas três naves escavadas na pedra posteriormente fechadas por arcos, paredes e portões, no denso arvoredo que parecia ter sido sujeito a uma chuva de líquen,...

E que fazíamos ali nós, no primeiro dia do primeiro mês do novo século, sob um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos, em pleno crepúsculo?...Provavelmente a perturbar o último dos eremitas...