30.4.05

PARA UMA DEFINIÇÃO DE ARQUITECTURA

ESTA REFLEXÃO

propiciou-se a partir da descoberta ocasional de um site, de uma discussão sobre o decreto de lei 73/73 e de um artigo de jornal. Na quinta-feira, Pacheco Pereira assinava uma crónica no Público intitulada "Portugal a Voo de Pássaro". Da janela do seu avião, PP traça-nos um retrato cruel mas verdadeiro do crescimento verificado nos últimos trinta anos no nosso país. Infelizmente, a palavra que utiliza é "crescimento" quando o termo que nos interessava a todos era "desenvolvimento". Mas entre uma palavra e outra vão muitos quilómetros de distância e nalguns casos, como o nosso, crescer pode ser sinónimo de destruir: "(...)o que encontro é um retrato de Portugal bem triste e sinistro, que se agrava todos os dias, numa obra de destruição em que muitos portugueses estão activamente empenhados, perante a complacência e a colaboração activa do Estado e das autarquias, em nome de um "progresso" que pouco mais significa que dinheiro, egoísmo e vistas curtas".
Mais à frente observa terrenos - que deveriam ser reservas agrícolas - a serem invadidos por todo o tipo de construções, sobretudo "casas de habitação e veraneio construídas ao modelo maison, térreas com colunas e pórticos". E é aqui que entra o site Diospiro Joyeux. No seu projecto urban destaca-se um interessante e provocador artigo intitulado "O Vírus do Estilo Rústico" com um ainda mais sugestivo subtítulo "Ou o Equívoco da Arquitectura Tradicional Portuguesa". Tudo agora se começa a resumir à questão central com a qual PP termina o seu artigo: mais do que problemas de pobreza, mais do que problemas económicos, estamos perante questões de literacia! O problema é que já ninguém percebe que o que caracterizava a arquitectura popular era a inteligência, a adaptação aos diferentes terrenos e climas, a racionalização de materiais, o excelente equilíbrio entre os meios (que eram escassos) e os resultados finais, a clareza com que ocupava o território.
Por isso, e se é verdade que a arquitectura popular sempre foi feita por não-arquitectos, a questão do 73/73 ultrapassa a questão do "popular" (até porque ele já não existe: ou foi destruído, ou foi abandonado, ou foi contaminado) para abarcar a do "vírus", esse estranho híbrido que se alastrou e atingiu todo Portugal, com as suas ligeiras cambiantes e uma resistência cada vez maior. Não acredito na figura do arquitecto enquanto salvador nacional, mas acredito que a revogação do 73/73 possa ser mais uma melhoria real ou, como diz PP, mais "uma gota de água no caos, na fealdade que cresce exponencialmente".

29.4.05

A LER:

a tese de mestrado do brasileiro André Costa (arquitecto e DJ), sobre a complexidade adjacente à estética pop dos nossos dias, considerada aqui como uma "manifestação estética rizomática", invocando o pensamento dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari. No centro do estudo está a cantora islandesa Björk, considerada quem melhor reúne "vários dos paradoxos comuns à vida contemporânea". Para os curiosos, fica aqui o abstract. A totalidade de "Da Emergência de Novas Subjectividades no Universo Pop Contemporâneo: As Aventuras Subjectivas de Björk" está disponível para download aqui.


"O pop é um universo contemporâneo dos mais previligiados para se observar a emergência de novas formas subjetivas. Ao tornar-se plano para a experimentação de novas tecnologias sonoras, visuais e comunicacionais, ele ultrapassa as fronteiras do entretenimento e adentra a vida quotidiana, invadindo o todo de nossas experiências humanas para mostrar uma produção que oscila entre o "diferente" e o "mesmo", entre a renovação e a crise estética-subjetiva. Sob a ótica da teoria deleuze-guattariana, pretende-se investigar a natureza (ou artificialidade) dessas novas subjetividades que, desde já, apostamos não serem "novas" apenas no sentido da frivolidade e da evanescência comumente conferidos a essa palavra. Para explorarmos esse tema escolhemos a obra da cantora e compositora Björk que parece ser um caso dos mais "felizes" dentro do pop para se pensar a afectividade humana em tempos marcados pela frieza das máquinas."


27.4.05

REGRESSAR,

aos poucos, depois de uma semana atarefada e de uma fuga até la Coruña por razões muito especiais...arrumar a casa, voltar aos horários normais, pôr as leituras em dia, abrir todos os bookmarks e verificar com alguma cumplicidade que houve mais bloggers que também estiveram ausentes, organizar ideias para os próximos escritos...

18.4.05

CASA DA MÚSICA


A propósito deste estranho objecto que invade agora o nosso quotidiano, é imperdível uma visita ao site da KultureFlash, uma newsletter sobre cultura contemporânea. O número 119 é dedicado à Casa da Música, com excelentes fotografias (esta é um exemplo) e links para artigos de opinião. Também o blog Defesa do Interesse Público , criado para defender a zona envolvente do recém inaugurado edifício, reúne várias notícias ou artigos de opinião. Para outra excelente reportagem fotográfica, intercalada com pertinentes citações, veja-se a Cidade Surpreendente.

13.4.05

PARA UMA DEFINIÇÃO DE ARQUITECTURA


Alberto Giacometti, Piazza, 1949-1950, Veneza, Peggy Guggenheim.

8.4.05

PARA UMA DEFINIÇÃO DE ARQUITECTURA

A partir de agora, este "exercício" vai ser feito num one-on-one virtual, aqui no Allegro e no Santa Bárbara. A distância não é só física...os 2400 quilómetros que separam o Porto e Roma são concerteza inferiores à distância que separa os nossos pensamentos! E aqui é que a coisa se começa a tornar interessante...

7.4.05

O MESMO CONCEITO, FERRAMENTAS DIFERENTES


René Magritte, Les Promenades d'Euclide, 1953.


Sam Javanrouh, Trasparent Laptop, 04.04.2005.

5.4.05

PARA UMA DEFINIÇÃO DE ARQUITECTURA

O Lugar da Casa
Uma casa que nem fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade



"(...) El mito de la cabaña primitiva construida por los hombres que dejan de ser nómadas, en un claro del bosque, ha dado pie a la idea de que la arquitectura, negociando con piedras, ramas y hojarasca, tenía por objecto el montaje físico y material de estos refugios. Pero son pocos los que, superando la pereza, han seguido leyendo el Libro I de Vitrubio y, unas lineas más adelante, han comprobado que, para el arquitecto romano, aquella construcción no se definia por la materialidad de sus componentes físicos, sino por el hecho de que la arquitectura era, debía ser, el lugar en el que se produciría el nacimiento del fuego y de la palabra. Ninguna cosa física, material, tangibile, por tanto, sino la inmaterialidad de la energía y de la comunicación son, desde Vitrubio, los verdaderos materiales de la arquitectura."

Ignasi de Solá-Morales, prefácio a Arquitectura de la Indeterminación.

3.4.05

POÉTICA(S) DO BANAL


Eduardo Chillida, Lugar de Encuentros III, Madrid, 1972-78.

2.4.05

TRAPALHADAS

Algo se passa na cidade do Porto. A turbulência que acompanhou os seis meses de governo Santana Lopes parece ter-se instalado, desde o início do ano, na Câmara Municipal da cidade invicta. Contradições, birras, braços-de-ferro, nonsense político, aumento exponencial de dívidas, planeamento digno do Quirguistão, aleatoriedade de critérios de intervenção na cidade histórica, prepotência, e muita política de "passar a batata quente" e "diz que disse".
A leitura dos jornais, nos últimos tempos, deixou-me num estado de esquizofrenia entre o choro e o riso. Este último em grande parte devido a dois memoráveis artigos de opinião do geógrafo Álvaro Domingues intitulados "o Túnel" e "Vidraria Machado Building" (respectivamente publicados no jornal Público de 22 e 26 de Março). Enumerar as trapalhadas é uma tarefa quase hérculea, senão vejamos:

a) o túnel de Ceuta, há seis anos em obras, não consegue ver a luz no seu fundo. Pergunto-me: não houve um projecto (de arquitectura, de engenharia, de mobilidade) ? Como foi ele aprovado? Quem o aprovou? Onde se localizava a saída? O IPPAR e o Hospital de Santo António não tiveram então conhecimento dessa saída?
b) o Metro na avenida da boavista: está integrado numa estratégia de mobilidade da Área Metropolitana do Porto (isso existe?...) ou surgiu para rectificar erros de concepção iniciais? E onde é que a corrida das "Donas Elviras" entra nesta história?
c) o Hospital de S.João: será que o serviço de urgências vai passar a ser feito nas carruagens do metro, com tarifário especial? Mais valia chamar-lhe a "Linha Negra"...
d) a Casa da Música: perderam-se 1,25 milhões em acessos ao estacionamento que agora não existem; perderam-se 13,7 milhões em indemenizações à Adicais; perdeu-se a oportunidade de colocar o Conservatório do Porto no local mais óbvio; e - do mal o menos - perdeu-se o janelão da "Vidraria Machado", obra que reflecte a ética dos nossos profissionais de arquitectura.
e) a Avenida dos Aliados/Praça da Liberdade/Praça do General Humberto Delgado merece um projecto contemporâneo e a Praça de Carlos Alberto não? A primeira vai ficar "moderna"...e a segunda, "uma mentira do século XIX contada no século XXI"?
f) o viaduto do parque da cidade foi desenhado e calculado com base em quê? Nos automóveis? Nos eléctricos? No metro? Nas "Donas Elviras"? Nos domingueiros de farnel e garrafão de tinto? No prémio Secil? Em todos eles?
g) os carris de eléctrico que aparecem ocasionalmente pela cidade ou que continuam a ser colocados em ruas recentemente remodeladas são exactamente o quê? Instalações de arte contemporânea? Reminiscências arqueológicas? Piadas de mau gosto? Estão integrados numa estratégia de mobilidade da Área Metropolitana do Porto? (isso existe?...)
h) que incompatibilidade existe entre as SRU e o CRUARB? Que critérios e metodologias de intervenção vão ser usados na recuperação da cidade histórica? Alguém vai ter uma visão global dos projectos ou vamos assistir a uma explosão de "Vidrarias Machado", apoiadas por poderosos mecenas?