28.9.05

THE SHINING

Comecei a (re)ver o filme, domingo à noite, quase por acaso. Lançava uns olhares fortuitos por cima do livro que estava a acabar, na esperança de não ficar agarrado ao televisor nas próximas duas horas. É evidente que não consegui resistir, mesmo sabendo que o dia seguinte era uma segunda-feira...
The Shining, de 1980, confirma (?) Stanley Kubrick como um dos grandes mestres da sétima arte, perfeccionista e obcecado pelos pormenores. É verdade que o filme não tem um argumento particularmente forte (é uma adaptação de um conto de Stephen King) nem um enredo elaborado; também é verdade que vive muito da interpretação dos personagens - a inenarrável Shelley Duvall e o brilhante Jack Nicholson, imortalizado para todo o sempre a espreitar por uma porta semidestruída com um sorriso alucinado; e é inegável que existem filmes de terror mais assustadores. Mas The Shining explora como mais nenhum a noção de espaço: este é o verdadeiro protagonista do filme, e Kubrick revela-se mestre exactamente na forma como o capta. O uso da steadycam, que persegue o pequeno Danny de triciclo pelos corredores labirínticos do hotel, a cena do diálogo entre o casal Torrance no grande hall - onde Jack dactilógrafa - e o baile no salão transportam-nos para um espaço insuportavelmente vasto, incompreensivelmente desproporcionado, subitamente desumano quando centenas de veraneantes e empregados deram lugar a apenas três pessoas. O terror do filme é construído a partir daqui.
O jardim barroco que existe no exterior do Overlook Hotel, onde Jack se "petrificará", é uma sinédoque: ali estão representados, inextrincáveis, os labirintos mentais, espaciais e temporais que constroem esta intrigante história.

25.9.05

LUNA Y MAR

Amaron amor urgente
las bocas saladas por la marejada
las costas dañadas por las tempestades
en aquella ciudad tan distante del mar

amaron el amor sereno
de nocturnas playas
alzaban las faldas
y se lunamamban de felicidad
en aquella ciudad
tan sin brillo lunar

amaron el amor prohibido
hoy eso es sabido
-todo el mundo cuenta
que una andaba lenta
grávida de luna
y otra iba desnuda
ávida de mar

y fueron quedando marcadas
oyendo las risas
temblando de frío
mirando hacia el río tan lleno de luna
y que continúa
fluyendo hacia el mar

y fueron corrientes abajo
rodando en el lecho
y tragando agua
flotando con algas
arrastrando hojas
abrazando flores
hasta naufragar

se fueron volviendo peces
volviendo almejas
volviendo espuma
volviendo arena
plateada arena
con luna llena
orilla al mar
(Chico Buarque - Daniel Viglietti, 1982)


Para a B.

18.9.05

CADERNO DE VIAGENS 011 / NY POSTVIEW


nova iorque, agosto de 2005

QUANDO FOR GRANDE QUERO VIVER AQUI


A fotografia foi tirada na Grécia e enviada para mim por email, como prenda de aniversário. Gracias, B.

14.9.05

INCLASSIFICÁVEIS

Being John Malkovich, de Spike Jonze, 1999.
Donnie Darko, de Richard Kelly, 2001.
Eternal Sunshine of the Spotless Mind, de Michel Gondry, 2004.

Sem dúvida os objectos cinematográficos mais bizarros e inclassificáveis dos últimos anos.

12.9.05

VERÃO

Sempre foi assim: o Verão despede-se de mim subtilmente, através de um fim-de-semana passado em algum lado, de uma noite especial, de um livro que acabei de fechar, de alguém que voltei a encontrar, de um último banho de mar, de um sorriso que tão cedo não vou tornar a ver. Nunca, para mim, o fim do Verão foi sinónimo de começo de aulas ou trabalho, ou mesmo do malfadado dia 21 de Setembro. O fim do Verão podia acontecer em Agosto, mas também podia acontecer em Outubro.

Veio-me isto à cabeça a ler os recuerdos de Verão do Alexandre. Partilho alguns desses recuerdos, como o calor de Nova Iorque ou o churrasco em que acabou tudo de rastos. E lembro-me também daquele fim-de-semana escaldante em Vilar de Mouros, em que acabámos por ficar rodeados de chamas. Quando li a última crónica do Miguel Sousa Tavares pareceu-me que ele também partilhava os meus recuerdos:
"Este Verão passei uns dias no Norte, entre o horror dos incêndios e o espanto por constatar que, enquanto o fogo ameaçava uma aldeia, a aldeia vizinha continuava despreocupadamente a atirar foguetes para o ar, para celebrar sabe-se lá o quê. Estive suficientemente perto dos incêndios para me dar conta do espírito reinante entre aqueles que viam as matas de eucaliptos e pinheiros pegarem fogo umas às outras, sucessivamente, (...) que se traduzia em comentários do tipo "não há nada a fazer, vai arder tudo, o país inteiro"(...)."

10.9.05

NOVA VENEZA


Na cidade-berço do Jazz a música é agora outra: a do silêncio.

7.9.05

FERNANDO TÁVORA (1923 - 2005)

(continuação)
5.
Fernando Távora e Carlo Scarpa adoptam uma postura crítica do Modernismo, sobretudo de uma determinada ideia de "modernidade comercializada", revelando aproximações mais fragmentárias em detrimento de uma visão linear e total da obra arquitectónica.

Para CS, a qualidade do fragmento revela-se na discontinuidade e o detalhe é o momento de separação/articulação das formas: onde o Movimento Moderno vê o poder harmonizante e a anulação das diferenças, CS exalta as diferenças.
FT tem uma visão universal da arquitectura mas ao mesmo tempo particular e circunstancial do objecto arquitectónico e das suas relações: assim surgiriam obras, segundo o próprio, "compostas por uma infinidade de factores".

6. Ambos recusam desenvolvimentos ideológicos nas suas carreiras ou sistematizações de qualquer doutrina.
CS era chamado "il professore", mas não teve "discípulos". Foi e continuará a ser uma personagem isolada na história da arquitectura italiana do século XX.
FT é considerado por muitos como o "pai fundador da Escola do Porto", mas na verdade não existe hoje nenhuma "Escola" ou movimento que siga as suas "doutrinas". O que houve foi uma transmissão lenta e sistemática de experiências, de prácticas projectuais entre gabinetes de arquitectura de gerações diferentes (Távora-Siza-Souto Moura). No termo "Escola" esconde-se um pressuposto academizante que o próprio ajudou a combater durante muitos anos...

7. Consideram a História como um instrumento operativo para a práctica projectual. O confronto com o passado é necessariamente feito de batalhas, mas apenas nos auxilia na medida em que nos ajuda a resolver os problemas do presente.
CS entende a intervenção no património como uma sucessão harmónica de partes em contínuo desenvolvimento, possibilitada pelo factor Tempo. Através do diálogo e do confronto interroga o antigo, tornando-o por isso moderno.
Os projectos de FT são lições de como saber utilizar a História, sem a relegar para a ilustração. A intervenção no património não deve ser um acto passivo de conservação, mas antes um acto creativo de concepção. Tudo se parece resumir numa frase sua: "Continuar, inovando."

8. "O mais dificil é a consciência da própria época."(Karl Joel)
O artista moderno encontra-se na encruzilhada entre o irrepetível/o único e a necessidade da repetição. CS e FT propõem, por sua vez, o modermo a partir da lição da tradição. Sem a criação de linguagens ou manifestos arquitectónicos próprios, acabam por estar próximos dos grandes mestres do século passado nos pontos fundamentais: de Le Corbusier e do seu saber ser clássico sem ser classicista ("próximo no espírito, eternamente afastado na vida"); e de Mies Van Der Rohe e da sua arquitectura enquanto expressão de uma lenta percepção/compreensão de uma época ("an epoch is a slow process").
Arquitecturas sem etiqueta: contêm todo o possível.
Arquitecturas sem Tempo: não pertencem a um único momento histórico.

5.9.05

FERNANDO TÁVORA (1923 - 2005)

Não tive o previlégio de o apanhar como professor. No meu primeiro ano, FT concedeu-nos algum do seu tempo para nos dar uma aula na disciplina que tinha abandonado poucos anos antes (Teoria Geral da Organização do Espaço onde, obviamente, o seu livro "Da Organização do Espaço" era a pedra basilar). Foi, na verdade, mais uma conversa do que uma aula. Passados alguns anos, quando estudava em Itália, preparei o meu exame de Storia dell'Architettura Contemporanea (oral, de tema livre) sobre FT, comparando a sua obra com a do mestre italiano Carlo Scarpa. Um ano depois FT seria doutorado Honoris Causa no Istituto Universitario di Architettura di Venezia, Francesco Dal Co (o meu professor) viria a coimbra para uma conferência sobre Távora (e...Scarpa!) e a sua editora, a Electa, preparava uma monografia sobre o mestre da arquitectura portuguesa!
Para o dito cujo esame preparei uma rábula - não fosse a memória ou os nervos prepararem-me uma partida - dividida em 8 pontos:

1. A "procura da modernidade" coincide com a procura do nosso passado, das nossas origens.
"Come architetti non abbiamo ancora riscatatto la forma delle cose umili e semplici."(CS)
"Qualquer estilo nasce do povo e da terra com a espontaneidade e a vida de uma flor." (FT)

2. Ambos estão contra as limitações que a banalização técnica impõe aos materiais: CS trabalha com os vidreiros de Murano, conhece as técnicas construtivas antigas, procura as qualidades intrínsecas dos materiais.
FT procura sempre utilizar materiais simples e técnicas tradicionais portuguesas para fazer arquitectura moderna. Para ele, não existe distinção entre tradição culta e tradição popular.

3. Ambos recusam uma homologação estilística e modelos apriorísticos, e pouco se preocupam com uma "linguagem" moderna: arquitectura sem etiquetas.
CS vê na norma uma manifestação de preguiça do olho: a sua arquitectura tem ornamento mas não tem um estilo (ornamento enquanto forma de ordem, de medida).
FT faz uma adaptação regional de linguagens internacionais: "Para mim é mais importante a qualidade do que o estilo". Carácter vs Estilo.

4. Os seus projectos não sobrevivem no desenho, mas precisam dele para se construirem.
"Voglio vedere le cose, non mi fido che di questo. Voglio vedere e per questo disegno. Posso vedere un'imagine solo se la disegno." (CS)
Para FT, o método de projectar é o conceito principal, central e legítimo da praxis arquitectónica. "O seu método, o desenho do seu processo de desenho ensina mais do que a própria obra", terá dito a seu respeito Alves Costa.

(continua)

3.9.05

NEW ORLEANS 2005

Ao ver as imagens das forças especiais da polícia e do exército americano em Nova Orleães, procurando restabelecer a ordem e controlar as pilhagens e assaltos que tomaram conta da cidade (ou do que resta dela) depois do furacão, lembrei-me de um clássico da "série B"de Hollywood, Escape From New York do inclassificável realizador John Carpenter. O filme, traduzido para português como Nova Iorque 1997, retratava esta cidade num futuro próximo (1981 é o ano da realização). Devido à elevada taxa de criminalidade, a Big Apple tinha sido transformada numa prisão de segurança máxima, rodeada por uma enorme muralha e privada de todas as suas pontes. Reina a anarquia total, pois as únicas regras que existem são ditadas pelos próprios prisioneiros que vagueiam pelas ruas, semi-destruídas e onde "sobrevivência" é a palavra de ordem.
O termo de comparação vem da constatação de como, por vezes mais rapidamente do que pensamos, a civitas pode degenerar na barbárie. Em poucos dias, à semelhança do que acontece actualmente no Iraque (ironia das ironias), grupos armados controlam partes da cidade ou edificios, a polícia recebe ordens de disparar a matar e os cidadãos armam-se reinvidicando o direito à auto-defesa. À semelhança da Nova Iorque que Carpenter imaginara, todos abandonaram a cidade; a diferença é que em Nova Orleães ficaram os pobres, os idosos e os mais desprotegidos - que não tiveram meios para fugir - na companhia dos gangs armados. Aqui, a espiral de violência desenvolve-se com a mesma velocidade da espiral de ventos e chuva do furacão Katrina, com a assinalável diferença que a segunda acaba por perder força e desaparecer ao fim de poucos dias...
Outra curiosidade do filme de Carpenter é o desvio do Air Force One por um grupo terrorista, que acaba por lançar o avião presidencial contra um edificio de Nova Iorque...

!

Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, TLD viu-se transportado para o passado na máquina do tempo: os Rolling Stones lançavam um álbum novo, os Beach Boys actuavam ao vivo, o Mário Soares candidatava-se à Presidência da República.

1.9.05

OUTRO GROUND ZERO

É impressionante a devastação causada pelo furacão Katrina, que varreu o Mississipi nos últimos dias. Sobretudo quando vemos as imagens de uma cidade como New Orleans, de dimensões consideráveis, transformada num gigantesco ground zero. Parece África Subsariana: as ruínas de pontes, viadutos e outros equipamentos assemelham-se a meteoritos errantes que por capricho do destino ali foram parar. Nada daquilo parece real. Nem mesmo a fome, o caos, a anarquia, o desespero, o medo no país mais rico do mundo.