27.10.05

TO MOVE?

The question is....where to?

TO MOVE


de Mitsuo Aida, enviado pela D.

To M____

Well anyway,
It's just a matter of making yourself move, you know.
To move in the here and now
It all there really is.

If you make yourself move,
Actual answers will appear.
Whether or not the answers you find
Are those you had expected
Is irrelevant,
You see,
By making yourself move,
Answers will naturally make themselves known to you.

The bottom line is____
The only one who can make you move
Is you.

(supostamente a tradução dos caracteres japoneses.)

AUSÊNCIA

Em épocas em que não há tempo para coçar uma pulga, socorro-me do correio dos meus amigos.
O próximo veio de longe, de muito longe...espero que a maior parte não tenha ficado lost in translation...

17.10.05

NECROLOGIA

Otis Redding (1967), Janis Joplin (1970), Jimi Hendrix (1970), Jim Morrison (1971), Nick Drake (1974), Tim Buckley (1975), Elvis Presley (1977), John Lennon (1980), Ian Curtis (1980), Elis Regina (1982), Andrew Wood (1990), Kurt Cobain (1994), Jeff Buckley (1997), Mark Sandman (1999), Layne Staley (2002), Elliot Smith (2003)...tantos que se calaram cedo demais!

16.10.05

LAST DAYS

O mais recente filme de Gus Van Sant, Last Days, é um objecto perturbante. Não apenas pelo tema abordado (o suicídio de uma estrela rock) ou pela personagem que evoca (Kurt Cobain, o incontornável "ícone" de uma geração): ele é perturbante porque nos deixa a reflectir sobre a sua própria construção, sobre o seu processo - mais do que o resultado final. "Afinal, que raio foi isto?", perguntámos a nós próprios quando saimos da sala de cinema, rodeados por teenagers atónitos.
Admito que o filme seja uma desilusão para a maioria dos fãns, que muitos adormeçam a meio, que outros nem sequer tenham paciência para esperar pelo corpo caído do desgraçado...pois a ideia "clássica" de filme foi completamente adulterada por Van Sant: não é uma reconstituição, como o próprio realizador afirmou, dos momentos que antecederam a morte de Cobain (e dos quais se poderiam tirar ilações); muito menos é um documentário; longe está de outros filmes sobre mitos do rock (por exemplo The Doors, de Oliver Stone); não tem uma história ou um argumento; não tem diálogos - apenas sussuros ou "improvisações jazzísticas" (como o próprio actor principal, Michael Pitt, afirma) intermediados de alguns gags; não tem um princípio, meio e fim...
O que assistimos durante uma hora e meia é um puzzle de imagens, sons, ambientes, movimentos, pausas, músicas, tudo montado de forma pouco convencional (cubista, como refere
João Lopes). É de facto um objecto poético, uma divagação tornada imagem, uma projecção que podia passar num museu de arte contemporânea - onde as pessoas pudessem entrar e sair - um excelente exercício de fotografia...mas será um "filme"?

13.10.05

CADERNO DE VIAGENS 012


florença, fevereiro 2002

9.10.05

73/73, MAIS UMA VEZ

Em semana de eleições autárquicas e comemorações do dia mundial da arquitectura, a blogosfera fervilhou em torno da questão do famigerado decreto de lei 73/73. A publicação de um texto do arquitecto Bernardo Rodrigues, sem qualquer ligação com a petição da Ordem dos Arquitectos, ajudou ao reacender da discussão e à divisão entre os "que são contra" e os "que são a favor". Eu tenho algumas dificuldades em ver esta questão a preto ou branco, e por isso muitas vezes a minha posição tende a ser vista como vaga ou ambígua; mas depois de tudo o que tenho lido estes dias, penso o seguinte:

1. A revogação do decreto, que possibilitaria que projectos de arquitectura passassem a ser única e exclusivamente assinados por arquitectos, não é uma garantia da melhoria da nossa paisagem construída. Isto parece-me evidente: basta dar uma vista de olhos por revistas que publicam projectos de arquitectos (Arquitectura e Vida, Casa e Construção, suplementos de imobiliária, etc etc) para ficarmos com os cabelos em pé. A licenciatura, por seu lado, também não é garantia de coisa absolutamente nenhuma: todos os que saem das universidades estão conscientes do muito que lhes falta aprender, caso contrário os 5 ou 6 (ou mais) anos que lá andaram terão sido em vão.

2. O facto do projecto entrar na Câmara com uma assinatura de um arquitecto não significa que tenha sido desenhado por um. Ou seja, passava a acontecer exactamente o mesmo que se verifica hoje em dia, mas em vez da dupla desenhador-engenheiro teríamos então desenhador-arquitecto. (E não me parece que a máxima "More Ethics , Less Esthetics" esteja muito presente nos nossos profissionais...)

3. No entanto, não vejo onde é que esta revogação possa ser uma "imposição do Estado" (com um teor fascizante...): qualquer cidadão é livre de encomendar a um arquitecto caixilhos em alumínio, paredes em azulejo ou balaustradas em pedra. A obrigação de um profissional é harmonizar tudo da melhor forma possível, organizar o espaço de uma forma lógica, integrar o mais possível a construção no ambiente circundante. Se pensar que é uma sumidade e está num patamar superior (só trabalha com betão aparente, caixilharia em ferro e "cozinhas Starck") está sempre no seu direito de mandar o cliente dar uma volta ao bilhar grande. Outros estarão dispostos a aceitar esta encomenda.

4. Também não entendo como esta revogação possa monopolizar a livre concorrência no mercado: 13 000 indivíduos a exercerem a mesma profissão num país de 10 000 000 de habitantes é monopólio?
Monopólio é a atribuição de determinadas encomendas sempre aos mesmos arquitectos sem a elaboração de concursos públicos.

5. Uma vez que se abriram cursos de arquitectura ao desbarato que "todos os anos lançam literalmente centenas de jovens para o desemprego", que o país está mergulhado numa crise económica sem fim à vista (com a consequente diminuição de encomendas, públicas e privadas) e que os recém-licenciados são mais mal pagos do que uma empregada doméstica, não posso aceitar que o pouco trabalho que ainda nos resta seja canalizado para outros profissionais que ridicularizam a complexidade da nossa profissão e que a nivelam por baixo, aceitando um projecto de uma moradia por 1000 euros!

6. Sem a revogação do decreto 73/73, a existência de um orgão como a Ordem dos Arquitectos é absurda e hipócrita.

7. Recordo-me de uma crónica de Pacheco Pereira na qual, comparando o Portugal de hoje com o Portugal pré-25 de Abril, o historiador escrevia o seguinte: "Há de facto algumas melhorias reais, há mais escolas, mais bibliotecas, mais equipamentos culturais, nalguns casos gigantes e subutilizados, mais hospitais, a nivel local e regional, melhor comércio de massas, mais acesso a determinados bens e mais dinheiro para os adquirir. É verdade. Mas é uma gota de água no caos, na fealdade que cresce exponencialmente."
Que a revogação do 73/73 possa ser mais uma gota de água.

(Para além das ligações apontadas nos Arquitectos Invisíveis, juntar ainda à discussão Santa Bárbara e Complexidade e Contradição).

5.10.05

RICORDI VENETI


veneza, novembro de 2001

duplicatio.2
Normalmente escondia-se entre as águas agitadas pelos barcos ou gôndolas, mas a chuva, o vento ou a neblina também eram seus aliados. Todos sabíamos que estava lá, mas raramente a víamos. Naquela límpida tarde de outono o acaso acertou o meu passo demorado com um dos seus raríssimos momentos de extroversão: ali estava ela, prostrada ao sol, discretamente elegante, imensamente bela e fugaz. O ainda longínquo motor de um barco avisava-me que o disparo tinha de ser rápido, se a queria fotografar.
As duas Venezas, ainda que debruçadas uma sobre a outra, pareciam querer evitar-se. Tal como a(s) Valdrada(s) que Marco Polo descreve ao Kublai Kan, as duas cidades gémeas não são iguais, pois nada do que existe ou acontece aqui é simétrico: a cada rosto e cada gesto respondem do espelho um rosto ou um gesto inverso ponto por ponto.
Afastei-me a pensar qual das duas será mais efémera.

2.10.05

POST NIILISTA

No jornal Público de hoje vem publicada uma entrevista a Souto Moura na qual o arquitecto chama a atenção para o erro de se politizar o metro do Porto. Refere também as voltas e reviravoltas a que determinados projectos estão sujeitos, perdendo-se por vezes o sentido e os objectivos que deram razão a tal investimento numa operação que substitui a lógica de planeamento e desenvolvimento pela lógica da calendarização política.
A uma semana das eleições autárquicas, é inevitável o debate sobre poder local e desenvolvimento nacional. Ouvimos na televisão, lemos nos jornais ou na blogosfera que Portugal cresce muito e mal, ou seja, cresce muito mal; que o conceito de ordenamento do território é sinónimo de construção; que centenas de câmaras municipais estão sob investigação, suspeitas de corrupção e cedências a pressões imobiliárias; que a legislação existente não é de maneira nenhuma suficiente (em quantidade ou qualidade?) para nos governar; até a tragédia dos incêndios já é referida por muitos como uma consequência da barbárie que é a nossa forma de ocupar um rectângulozinho à beira-mar plantado...

Tudo isto é verdade, mas nada disto é novidade. Basta viajar um pouco pelo nosso território, pelas duas áreas metropolitanas que engoliram, desprezaram e espezinharam os seus núcleos históricos, ou pela cidade contínua, difusa e dispersa no norte, ou pelo interior abandonado e envelhecido, ou pelos aglomerados que se suicidam pelas ribanceiras abaixo em direcção ao mar, ou por essa bandalheira que se chama Algarve para perceber imediatamente que "está tudo mal", parafraseando Gonçalo Ribeiro Telles - e não é preciso ser nenhum especialista na matéria para chegar a esta conclusão.
Depois de trinta anos a chafurdar na lama, a conceber ininterruptamente variações sobre o mesmo erro e a recusar aceitar o óbvio - que está tudo mal - a Portugal só restam duas esperanças: ou o desaparecimento da classe política ou uma catástrofe natural.